Interview: Jon & Troy

Melancolia Como Estado de Espírito

São americanos mas preferem a Europa, possuem uma grande energia de guitarras mas consideram a melancolia como um estado de espiríto natural, andam nestas lides há mais de dez anos mas têm agora um novo disco na calha, e foi esse o pretexto para a conversa posterior. São os Chokebore, nas palavras do seu guitarrista Jonathan Kroll e vocalista Troy B. Von Balthazar, os senhores que se seguem.

No vosso website dizem que o mais recente álbum "It's a Miracle" possui um formato de canção mais tradicional que o dos vossos discos anteriores. Tentaram "limpar" a vossa sonoridade? Pensa que este disco atingirá um público mais vasto?

Jonathan Kroll - Não sei muito bem o que quer dizer com "limpar" a nossa sonoridade, mas o nosso objectivo quando fomos para o estúdio, foi apenas fazer estas canções o melhor possível. Em relação ao atingir um público mais vasto, nunca se sabe o que pode acontecer. Posso dizer que estou feliz com este novo álbum, e estou ansioso por ouvir e ver as reacções das pessoas.

A música que fazem teve desde sempre um forte apoio na força das guitarras, e neste novo registo as guitarras assumem uma vez mais um papel fundamental. Continua a ser um desafio explorar o potencial da guitarra, bem como a tensão e o fuzz destas, presentes nos vossos temas?

J.K. - Com certeza, penso que actividades como tocar guitarra, piano, pintar, esse tipo de coisas, são ilimitadas. O desafio consta em conseguir permanecer criativo, aberto a influências e inspirado pelo que se faz. Agora tenho mais tempo para fazer mais layers, e tenho sempre ideias para melodias, ou texturas diferentes. Penso que o termo "fuzz" é demasiado simples... existem bastantes sons de guitarra diferentes de canção para canção, e mesmo dentro da mesma canção...

Aparte da força das guitarras, existe também uma certa melancolia omnipresente na voz, bem como um determinado sentimento de dor patente nos vossos temas. Acham que é isto que distingue os Chokebore da maioria das bandas de rock alternativo, colocando-vos num grande nível de emoção e intensidade?

J.K. - É difícil para mim dizer o que nos separa deles, e para ser sincero talvez isso aconteça, por eu não pensar "neles". Trabalhamos para compor boas canções, e guiamo-nos apenas por nós próprios. Mas certamente que diria existir uma atmosfera de melancolia. Penso que é algo importante, a música ter substância. Para nós o estado de melancolia é mais natural, mas não tentamos compor propositadamente um certo tipo de canção, apenas compomos.

Troy Balthazar - Bem, tudo o que sei é que tento escrever canções directamente da minha mente e do meu coração, e presumo que muitas delas soem bastante tristes, mas é o que acontece naturalmente quando me sento para escrever. E é bom que seja desta forma. Quando os Chokebore tocam em algo, isso torna-se em melancolia mas com beleza.

Após uns quantos anos de existência, pensam já terem já alcançado uma sonoridade peculiar e única, que as pessoas identificam como sendo dos Chokebore, tornando-se em última instância uma influência para aqueles que agora começam a fazer música?

T.B. - Parece que sim... Muitas pessoas já nos disseram que as influenciámos musicalmente. É fantástico ouvir isso, que mais poderíamos pedir?

J.K. - Gostaria de dizer que sim, e já muitas pessoas me disseram isso, mas embora seja agradável pensar que isso é verdade, é difícil para mim estando na banda, aperceber-me de como soa do outro lado. Seria bom obter algum reconhecimento pela sonoridade dos Chokebore, nunca fizémos nada de que me envergonhe.

Há mais de uma década que estão na indústria musical, e julgo que tem sido um percurso árduo. Sentem-se desapontados com a indústria musical, por nunca vos ter dado o reconhecimento que merecem?

J.K. - O facto é que, a indústria musical nunca nos prometeu nada, e quando era mais novo nunca pensei ir assim tão longe com esta banda. Quando comecei a tocar em bandas, as bandas de que gostava e a música que tocava nunca passavam na rádio nem na televisão, estavam apenas nma ou duas pequenas lojas de discos em Honolulu onde cresci. Mas o facto já referido é que estamos na indústria musical há dez anos, e claro que a maior parte do tempo penso que a indústria musical é uma treta, mas acho o mesmo em relação ao cinema. O que quero dizer é que é essa a cultura que nos é dada, e não só aos Chokebore. É assim que as coisas andam por vezes, mas como banda já experienciámos muitas coisas fantásticas juntos. Não deixo a cultura corporativa deitar-me abaixo, continuo a fazer a minha música.

Disse que actualmente tenta escrever letras menos simbólicas, e que "It's a Miracle" tem letras mais directas e explícitas. Porque é que optou por este processo de escrita? Considera que as suas letras são mais autênticas desta forma?

T.B. - Não, isso deveu-se ao facto de eu ter sofrido uma mudança radical na minha vida, a qual me levou a despertar para aquilo a que se pode chamar "o mundo real". Foi assustador mas interessante, e com certeza que valeu a pena escrever sobre isso. As letras nunca mentem.

Falem-nos um pouco do processo de gravação de "It's a Miracle". É verdade que estiveram apenas três semanas no estúdio?

J.K. - É muito dificil dizer quanto tempo passámos no estúdio. Levámos para lá o equipamento no fim de Julho, fomos para França em Agosto tocar num festival em St. Malo, voltámos e gravámos alguma coisa no princípio de Setembro, mas passámos as duas últimas semanas de Setembro em tourné pelos E.U.A. com os Unwound. Voltámos para L.A. e o James terminou as gravações do baixo, e depois foi passar o resto do Outono em São Sebastião, Espanha. Depois o Troy trabalhou no estúdio em Outubro, gravando as guitarras e a voz. No fim de Outubro fomos para o Havaí, e eu passei as três semanas seguintes com o Christian e dois engenheiros diferentes em dois estúdios diferentes a misturar o disco. Depois fomos para Ventura para masterizar o disco, e seguidamente em Janeiro o Troy regravou uma vocalização, e fizemos algumas remisturas. E assim ficou pronto. Portanto, durou muito mais que três semanas, mas é difícil dizer precisamente quanto tempo, porque muitos dias íamos para o estúdio, e só trabalhávamos tipo uma hora, porque depois tínhamos de parar. Talvez tivesse durado três semanas espalhadas por seis meses. Este foi o período mais stressante de todos os discos que gravámos, mas para mim o mais gratificante, uma vez que dediquei imensa atenção ao trabalho com a guitarra.

Os Chokebore parecem ter mais sucesso na Europa que nos E.U.A. Por que acham que isto acontece? Identificam-se mais com o público europeu?

J.K. - Bem, gostamos mais da Europa que dos E.U.A. No início passámos muito tempo em digressão pelos E.U.A, mas dava-nos mais gozo tocar na Europa, e começámos a passar cada vez mais tempo aí. Sem querer falar muito disso, ou dizê-lo de um modo simplista, diria então que notamos que o público europeu é mais atento àquilo que fazemos.

Uma vez disseram que L.A. é uma porcaria. O que vos leva a terem uma opinião tão negativa sobre a cidade?

J.K. - Nem sequer me apetece falar de L.A. para ser sincero. Não sei o que dizer... Quero dizer, é uma porcaria e eu não quero viver lá para sempre, já estou lá há mais tempo do que pensava que iria ficar. Mas o facto é que tenho lá amigos chegados, e gosto muito dos meus dois gatos.

T.B. - É uma cidade tão fria, e as pessoas têm todas medo umas das outras. Faz com que todas as pessoas que lá habitem se tornem frias e receosas... Que se lixe!

Sentem-se ligados a certas bandas da cena musical actual?

J.K. - Provavelmente soará bizarro, mas gostei muito de tocar com os Pulp este Verão no Route du Rock. Somos bandas bastante diferentes, e não diria que me sinto ligado a eles. Não me sinto ligado a nenhuma banda ou cena musical. Não sei, gosto de tantos estilos diferentes de música, que seria difícil apontar bandas. Mas, também obtenho ideias musicais de imagens visuais ou vice-versa. Não me sinto ligado a determinadas bandas, mas sim a impulsos artísticos que podem ser encontrados nos sítios mais diversos. Mas claro que essas ligações estão todas na minha cabeça...

O vosso website tem sido um bom veículo transmissor da vossa música ao mundo?

J.K. - Sim, tem. E estamos bastante agradecidos ao Florant pelo trabalho que tem feito. Penso que é um site muito bom, e dá-me a oportunidade de conseguir fotos de concertos que de outra forma não teria.

Preocupam-se com o artwork dos discos? Considera importante no sentido em que este pode transmitir uma imagem?

J.K. - Sim, sinto que é importante. Há discos que tenho que têm um artwork horrível, mas dos quais gosto muito. Mas estudei arte durante cinco anos e arte é algo em que estou profundamente interessado, logo para mim é inevitável preocupar-me com o nosso artwork. Não estou completamente satisfeito com todo o trabalho visual, mas penso que fizemos algumas coisas boas, e gosto do design do novo CD.

T.B. - Sim, com certeza. Trabalhamos com um artista de L.A. fantástico chamado Kevin Hanley. Confiamos nas ideias e nos olhos dele.

E planos para o futuro? São essencialmente promover este novo disco e andar em digressão?

J.K. - Por agora? Sim, e depois começar a compor o novo disco, etc, etc.

Possuem memórias das ocasiões em que vieram tocar a Portugal?

T.B. - As praias são lindas e as pessoas que conhecemos eram todas muito simpáticas. Houve um homem que nos tentou vender haxixe, mas para ser sincero parecia mais um grande monte de merda de cão, e acho que até era... Mas não nos importámos, fumá-mo-lo à mesma!

Ana Gandum

Mondo Bizarre #11 (Maio de 2002)